O Malleus Maleficarum: O Martelo das Feiticeiras e a Construção da Imagem da Bruxa

 

A Forja da Perseguição: Como um Manual Inquisitorial Moldou o Estereótipo Demoníaco Feminino

História Viva com a Prof.ª Socorro Macêdo
O Martelo das Feiticeiras e a Construção da Imagem da Bruxa"

O Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras), publicado pela primeira vez em 1487 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger, não foi apenas um livro; foi uma das mais infames e influentes ferramentas intelectuais da caça às bruxas na Europa durante o final do século XV e por mais de dois séculos seguintes. Este manual, rapidamente aceito por muitos clérigos e magistrados, consolidou a imagem da bruxa e forneceu a estrutura legal e teológica para sua perseguição sistemática, legitimando uma onda de violência que consumiu dezenas de milhares de vidas.


🔨 O Conteúdo e a Estrutura do "Martelo"

O Malleus Maleficarum é dividido em três partes principais, cada uma servindo a um propósito específico na construção da caça às bruxas:

  1. A Natureza da Bruxaria: Esta seção dedica-se a provar que a bruxaria, o pacto com o Diabo e a magia maligna são reais e constituem o crime mais hediondo. Refuta os argumentos céticos da época e estabelece a necessidade de intervir contra esse mal.

  2. Os Métodos das Bruxas: O manual detalha as supostas práticas e malefícios das bruxas: como elas faziam pactos, lançavam feitiços para causar impotência, doenças, desastres climáticos, e como usavam os sacramentos de forma sacrílega. Esta parte solidificou os estereótipos mais comuns e macabros associados à figura da bruxa.

  3. O Procedimento Judicial: A seção mais prática e perigosa. Ela estabelece as regras para a iniciação, condução e conclusão de um julgamento de bruxaria. Instruía sobre a obtenção de confissões (principalmente através da tortura), como lidar com testemunhas e a forma correta de aplicar a pena de morte (a fogueira).


👩‍🔬 A Construção do Estereótipo: Gênero e Misoginia

Um dos aspectos mais marcantes do Malleus é sua profunda misoginia. Kramer e Sprenger argumentam explicitamente que as mulheres, por serem "naturalmente" mais frágeis na fé, mais concupiscentes e mais facilmente enganadas pelo Diabo, eram muito mais propensas à bruxaria do que os homens.

  • A Conexão Feminina com o Demônio: O livro utiliza passagens bíblicas (muitas vezes distorcidas ou mal interpretadas) e argumentos pseudocientíficos para afirmar a superioridade numérica das bruxas em relação aos bruxos. A própria palavra femina (mulher) era jocosamente derivada de fe (fé) e minus (menos), significando "menos fé".

  • Foco na Sexualidade: O manual dedicou especial atenção às supostas bruxas que causavam impotência masculina e abortos, focando na sexualidade feminina como a principal via de entrada do Diabo no mundo. A figura da bruxa tornou-se inseparável da imagem de uma mulher perigosamente sexualizada, rebelde e subversiva.

Dessa forma, o Malleus não apenas descreveu uma bruxa, mas a definiu como uma mulher: má, sedutora do Diabo, e uma ameaça à ordem social e religiosa.


📜 A Legitimidade da Perseguição

A principal influência do Malleus Maleficarum reside em sua capacidade de legitimar a perseguição em massa.

  1. Autoridade Teológica e Legal: O manual foi endossado indiretamente por uma bula papal anterior (Summis desiderantes affectibus, 1484) e, embora não fosse um texto oficial da Igreja Católica, sua erudição detalhada conferiu-lhe um peso de autoridade inquestionável em tribunais seculares e religiosos.

  2. Padronização do Procedimento: Ao codificar um procedimento de interrogatório e tortura, o Malleus permitiu que a caça às bruxas fosse conduzida de forma sistemática e repetível em diferentes regiões, transformando o pânico isolado em uma campanha continental.

  3. Reforço do Medo: Ao pintar uma imagem tão vívida e detalhada dos poderes malévolos das bruxas, o livro exacerbou o medo popular e o pânico moral, tornando mais fácil para as comunidades apontar e acusar vizinhos em momentos de crise, como doenças ou más colheitas.

Em retrospectiva, o Malleus Maleficarum é um documento sombrio que revela a interseção letal entre fanatismo religioso, misoginia institucionalizada e o poder da imprensa. Ele atuou como um catalisador, não apenas descrevendo um crime, mas fundamentalmente construindo o criminoso na imaginação pública, lançando as bases para um dos capítulos mais sangrentos da história ocidental.

📜 A Influência do Malleus Maleficarum nas Leis Seculares

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A Influência do Malleus Maleficarum nas Leis Seculares

A Transição do Manual Teológico para a Prática Forense

Embora o Malleus Maleficarum fosse, em sua essência, um manual de teologia moral e demonologia, sua maior e mais destrutiva influência se deu no campo do direito penal secular em toda a Europa e, posteriormente, em suas colônias. Ele serviu como uma ponte crucial que ligou a heresia (crime religioso) à bruxaria (crime secular), tornando-a uma questão de estado a ser punida com a máxima severidade.


⚖️ Padronização do Procedimento Judicial

O impacto mais direto do Malleus nas leis seculares reside na Terceira Parte do livro, que detalha o "Modo de Iniciação e Condução de um Julgamento". Este manual forneceu aos juízes leigos, que muitas vezes careciam de experiência em lidar com crimes tão "extraordinários", um roteiro processual de autoridade:

  • Inquisição vs Acusação: O livro legitimou o uso do sistema inquisitorial, onde o tribunal (judex) era o responsável por iniciar a investigação, buscar provas e processar o acusado, em contraste com o sistema adversarial, onde duas partes se enfrentam. Isso removeu a necessidade de um acusador formal, permitindo que boatos e denúncias anônimas fossem o suficiente para iniciar um caso.

  • A Confissão como "Rainha das Provas": O Malleus instruiu explicitamente os juízes seculares a considerarem a confissão como a prova suprema da culpa. Ao fazer isso, ele defendeu a aplicação da tortura judicial para "quebrar" a resistência dos acusados. Ele detalhava formas de interrogar e pressionar, assegurando que o uso da tortura não fosse considerado um pecado, mas sim uma necessidade para salvar a alma do réu e proteger a comunidade.

  • Ab-rogação de Direitos: O manual recomendava que, em casos de bruxaria, as regras legais tradicionais que protegiam o réu (como o direito de confrontar os acusadores ou a proibição de testemunhos de criminosos) deveriam ser suspensas. O crime de bruxaria era considerado crimen exceptum (crime excepcional), justificando a anulação dos procedimentos padrão para garantir a condenação.


💥 A Criação de um Crime de Alta Traição

A influência do Malleus Maleficarum também foi fundamental na elevação da bruxaria de uma superstição local a um crime de traição contra Deus e o Estado.

  • Conceito de Pacto: Ao enfatizar que a bruxaria era invariavelmente o resultado de um pacto voluntário com o Diabo, o manual transformou a bruxa em um inimigo político e religioso. O juramento ao Diabo era visto como Alta Traição contra o soberano divino, e, por extensão, contra o soberano temporal.

  • Reafirmação da Pena de Morte: O manual argumentava que, como a bruxaria era uma forma de heresia e traição, a pena de morte por fogo (tradicionalmente reservada para a heresia na lei eclesiástica e para a traição na lei secular) era a única punição apropriada. A queima não apenas matava o corpo, mas, teoricamente, purificava a terra do mal demoníaco.

A popularidade e a extensa circulação do Malleus garantiram que seus métodos e sua filosofia jurídica fossem absorvidos pelos novos códigos legais que surgiam na Europa (como a Constituição Criminal Carolina de 1532, no Sacro Império Romano-Germânico) e pelas leis de bruxaria promulgadas em países como Escócia, França e Inglaterra. O livro forneceu o paradigma para identificar, processar e punir a bruxa, solidificando as bases legais para os séculos de terror que se seguiram.

🔬 Contrastes Judiciais: Malleus Maleficarum e o Direito Romano-Canônico

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Contrastes Judiciais: Malleus Maleficarum e o Direito Romano-Canônico

O Malleus Maleficarum não existiu num vácuo legal; ele interagiu e, muitas vezes, subverteu os princípios estabelecidos do Direito Romano-Canônico que dominavam a Europa medieval e moderna. O aprofundamento reside em entender como Kramer e Sprenger exploraram as brechas e exceções do sistema legal existente para solidificar a perseguição à bruxaria.


🏛️ O Direito Romano-Canônico ( Ius Commune)

O Direito Canônico, baseado em grande parte no Direito Romano (especialmente o código de Justiniano), era o sistema legal padrão, fornecendo a base para a maioria dos procedimentos judiciais seculares e eclesiásticos. Este sistema possuía princípios destinados a garantir uma medida de justiça processual:

  • Princípio do Adversário e Provas: A regra geral era que o acusador precisava provar a culpa do réu com testemunhas e evidências materiais irrefutáveis. Para a maioria dos crimes graves, exigiam-se duas testemunhas de bom caráter.

  • Crimen Exceptum (Crime Excepcional): O sistema legal já reconhecia certos crimes (como a Heresia e a Alta Traição) como crimina excepta. Devido à sua natureza hedionda e secreta, estes crimes permitiam uma flexibilização nos procedimentos, como a aceitação de testemunhos de má reputação ou o uso da tortura em circunstâncias estritas.


😈 A Distorção do Malleus sobre a Lei

O Malleus Maleficarum usou a categoria de crimen exceptum de forma extensiva e inovadora para justificar a anulação das salvaguardas processuais em casos de bruxaria:

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A Distorção do Malleus sobre a Lei
  • Bruxaria como Heresia: A inovação legal mais importante do Malleus foi a insistência em que a bruxaria era uma forma de heresia apostática (renúncia total à fé), o que colocava as bruxas sob a jurisdição teológica e, portanto, sob as regras mais severas do processo inquisitorial. Ao fundir heresia com maleficium (magia nociva), o manual transferiu a rigidez do processo canônico de heresia para os tribunais seculares que lidavam com bruxas.

📈 Consequência: A Máquina de Condenação

Ao desvirtuar as regras de evidência e procedimento sob o pretexto de lidar com um "crime excepcional" de dimensão demoníaca, o Malleus Maleficarum desarmou as defesas legais do acusado.

Ele forneceu uma legitimidade pseudo-acadêmica para procedimentos que eram, na prática, projetados para garantir a condenação. As instruções detalhadas sobre a tortura e a anulação dos direitos do réu nos julgamentos de bruxaria se tornaram a prática padrão nos tribunais seculares de muitos territórios durante o auge da caça às bruxas (c. 1560–1630).

📊 Resumo do Artigo: O Malleus Maleficarum e Suas Consequências

Aqui está um resumo dos pontos-chave do artigo, organizado em uma tabela para visualização rápida da estrutura do livro, sua misoginia e sua influência legal distorcida.

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 Resumo do Artigo: O Malleus Maleficarum e Suas Consequências

🌟 Cinco Razões Principais da Influência do Malleus Maleficarum

O Malleus Maleficarum exerceu uma influência desproporcional e duradoura na história da caça às bruxas devido a uma combinação de fatores teológicos, legais e sociológicos.

Aqui estão as cinco razões principais que explicam seu poder destrutivo e disseminação:

  1. Legitimação Teológica e Papal:

    • O que fez: O livro incorporou e ampliou a autoridade de uma bula papal anterior (Summis desiderantes affectibus), conferindo à perseguição uma sanção eclesiástica de alto nível, embora o próprio livro não fosse um texto oficial da Igreja.

    • Impacto: Silenciou os teólogos céticos e estabeleceu a bruxaria como um crime real, baseado no pacto demoníaco.

  2. O Foco Misógino e a Imprensa:

    • O que fez: A obra explorou de forma explícita e detalhada a misoginia da época, definindo a bruxa como inerentemente mulher. Publicado logo após a invenção da imprensa de tipos móveis, o Malleus teve uma distribuição sem precedentes para um livro de demonologia.

    • Impacto: Solidificou o estereótipo da bruxa como agente feminino do Diabo na consciência pública e garantiu que o manual chegasse rapidamente a clérigos e juízes em toda a Europa.

  3. Fusão Letal de Heresia e Crime Secular:

    • O que fez: Elevou a bruxaria de maleficium (magia nociva) para o nível de heresia apostática (traição a Deus) e, consequentemente, Alta Traição contra o Estado.

    • Impacto: Permitiu que a punição mais severa, a morte pela fogueira, fosse aplicada e justificou a intervenção de tribunais seculares no que era, inicialmente, um crime de natureza religiosa.

  4. O Roteiro Processual para o Crimen Exceptum:

    • O que fez: A Terceira Parte do livro forneceu um guia prático e detalhado (um verdadeiro "manual de procedimento") para juízes leigos, instruindo-os a tratar a bruxaria como um crimen exceptum (crime excepcional).

    • Impacto: Anulou as proteções legais do Direito Romano-Canônico (como o direito a um advogado e a exigência de testemunhas credíveis), padronizando a tortura e a confissão forçada como ferramentas centrais do processo.

  5. A Criação da "Rainha das Provas":

    • O que fez: Insistiu que a confissão era a prova máxima de culpa e detalhou como contornar as restrições legais da tortura para obtê-la.

    • Impacto: Transformou os tribunais em máquinas de condenação. Uma vez que a bruxaria era um crime secreto, a confissão era virtualmente a única maneira de provar o pacto demoníaco, garantindo que o processo fosse sempre direcionado à condenação.


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História Viva com a Prof.ª Socorro Macêdo

Professora Licenciada em História com especialização em Gestão Escolar. Trabalhei por 26 anos na rede municipal. Gosto de aprender sobre Educação e tecnologia.

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