O Congresso de Viena e a Restauração: Uma Tentativa de Voltar ao Passado?

 

Entre o equilíbrio de poder e a repressão, como as monarquias tentaram redesenhar o mapa (e a história) da Europa após o furacão napoleônico.


História viva com a Prof.ª Socorro Macêdo
O Congresso de Viena e a Restauração: 

Após mais de duas décadas de guerras ininterruptas, transformações sociais radicais e a queda de impérios milenares, a Europa de 1814 parecia um quebra-cabeça cujas peças não se encaixavam mais. A derrota definitiva de Napoleão Bonaparte em Waterloo deixou um vácuo de poder que as velhas monarquias estavam ansiosas para preencher.

O Congresso de Viena (1814-1815) foi, em essência, a maior conferência diplomática que o mundo já havia visto até então — e talvez a mais nostálgica.

1. O Cenário Pós Napoleônico: O Fim da Tempestade

A Europa estava exausta. Napoleão não apenas conquistou territórios; ele espalhou os ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) e o Código Civil por onde passou. Para as casas reais da Áustria, Prússia, Rússia e Reino Unido, Bonaparte não era apenas um general brilhante, mas um "vírus" que ameaçava o Status Quo.

O Congresso não foi apenas sobre fronteiras, mas sobre contenção. Era necessário criar um sistema que impedisse que outra França (ou outro Napoleão) voltasse a dominar o continente.

2. Os Protagonistas e a Dança Diplomática

Embora o Congresso tenha ficado famoso pelos bailes e banquetes luxuosos (o que levou à frase "O Congresso não marcha, ele dança"), as decisões reais eram tomadas em salas fechadas pelo "Comitê dos Quatro":

  • Klemens von Metternich (Áustria): O arquiteto do sistema, um conservador convicto que odiava o liberalismo.

  • Czar Alexandre I (Rússia): Com visões místicas e expansionistas.

  • Visconde de Castlereagh (Reino Unido): Focado no equilíbrio naval e comercial.

  • Talleyrand (França): O diplomata camaleão que, mesmo representando o país derrotado, conseguiu manter a França como uma potência relevante na mesa de negociações.

3. Os Pilares de Viena: Legitimidade e Equilíbrio

As decisões foram guiadas por dois princípios fundamentais:

  • Princípio da Legitimidade: Proposto por Talleyrand, defendia que as dinastias que governavam antes da Revolução Francesa deveriam ser restauradas aos seus tronos. Isso devolveu os Bourbons à França e aos reinos da Itália e Espanha.

  • Equilíbrio de Poder (Balance of Power): O objetivo era garantir que nenhuma potência fosse forte o suficiente para esmagar as outras. Isso resultou em um redesenho geográfico estratégico: a criação de "Estados-tampão" ao redor da França para vigiá-la.

4. A Santa Aliança: O Braço Armado da Reação

Para garantir que o "vírus revolucionário" não voltasse a infectar a Europa, surgiu a Santa Aliança (Rússia, Áustria e Prússia). Sob o pretexto de proteger a "Religião, a Paz e a Justiça", esse bloco militar se deu o direito de intervir em qualquer país onde uma revolução liberal ameaçasse a ordem monárquica. Foi o auge do conservadorismo europeu.

5. Consequências: Sucesso Diplomático ou Fracasso Social?

O Congresso de Viena foi bem-sucedido em evitar uma grande guerra europeia por quase 40 anos (até a Guerra da Crimeia). No entanto, ele falhou em entender a nova alma do povo.

  • O Sufocamento do Nacionalismo: Ao redesenhar o mapa ignorando as identidades culturais (unindo belgas e holandeses, ou mantendo a Itália e a Alemanha fragmentadas), Viena plantou as sementes das revoluções de 1830 e 1848.

  • O Anacronismo: Tentar restaurar o Absolutismo em uma Europa que já tinha provado o gosto do parlamentarismo e dos direitos civis era como tentar colocar o gênio de volta na lâmpada.

Veredito: Uma tentativa de voltar ao passado?

Sim. O Congresso de Viena foi um esforço hercúleo das elites para apagar os últimos 25 anos de história. Eles conseguiram restaurar as coroas, mas não conseguiram restaurar a obediência cega. O século XIX seria, a partir dali, um cabo de guerra constante entre a Restauração (o passado) e o Liberalismo (o futuro).

O Congresso de Viena e o Brasil: De Colônia a Reino

Os impactos do Congresso de Viena para o Brasil foram profundos e, de certa forma, irônicos: enquanto as potências europeias tentavam restaurar o "Velho Mundo", as decisões tomadas em Viena acabaram acelerando o caminho do Brasil para a independência.

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O Congresso de Viena e o Brasil: De Colônia a Reino

Como a diplomacia europeia, ao tentar restaurar o passado, acabou forçando o nascimento de uma nova nação na América.

Muitas vezes estudamos o Congresso de Viena como um evento puramente europeu, mas suas ondas de choque cruzaram o Atlântico. Para o Brasil, o Congresso não foi apenas uma reunião de monarcas, mas o palco de umamudança jurídica que alteraria para sempre nossa história.

1. O Impasse Diplomático: Rei ou Fugitivo?

Com a derrota de Napoleão, o princípio da Legitimidade exigia que os monarcas retornassem aos seus tronos originais. Para as potências europeias, a sede da monarquia portuguesa era Lisboa.

Dom João VI, que vivia no Rio de Janeiro desde 1808, encontrava-se em uma situação delicada: se permanecesse no Brasil como "Regente de uma colônia", ele seria visto em Viena apenas como um monarca em exílio, sem plenos direitos de soberania na mesa de negociações.

2. A Solução: Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815)

Para resolver esse problema jurídico, o diplomata francês Talleyrand deu uma sugestão astuta: elevar o Brasil à categoria de Reino.

Em 16 de dezembro de 1815, o Brasil deixou de ser oficialmente uma colônia. Ao se tornar parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, o Rio de Janeiro tornou-se, por direito, a capital de uma monarquia europeia em solo americano. Isso deu a Dom João VI a legitimidade necessária para participar do Congresso de Viena como um igual.

3. Impactos Territoriais: A Questão da Guiana

Nem tudo foram ganhos políticos. O Congresso de Viena forçou Portugal a resolver impasses territoriais:

  • Devolução da Guiana Francesa: Em 1809, como represália à invasão de Portugal, Dom João havia conquistado a Guiana Francesa. O Congresso obrigou a devolução do território à França, estabelecendo a fronteira definitiva no Rio Oiapoque (que permanece até hoje).

  • Questão de Olivença: Portugal tentou recuperar o território de Olivença (na fronteira com a Espanha), mas, apesar de reconhecido pelo Congresso, a Espanha nunca o devolveu.

4. A Pressão Britânica e o Tráfico Negreiro

Um dos anexos mais importantes do Ato Final do Congresso de Viena tratava da abolição gradual do tráfico transatlântico de escravos. A Grã-Bretanha usou o Congresso para pressionar as nações ibéricas. Para o Brasil, isso significou o início de uma longa e tensa negociação diplomática com os ingleses, que culminaria em tratados cada vez mais restritivos nas décadas seguintes, impactando diretamente a economia cafeeira e o sistema escravista.

5. O Caminho sem Volta para a Independência

O maior impacto, porém, foi político-social. Ao elevar o Brasil a Reino, Dom João VI "abriu a caixa de Pandora":

  • O Brasil ganhou autonomia administrativa e dignidade política.

  • Quando as Cortes em Portugal (em 1820) tentaram rebaixar o Brasil novamente ao status de colônia, a elite brasileira — que já se sentia parte de um Reino — não aceitou o retrocesso.

Veredito: O "Empurrão" para 1822

O Congresso de Viena queria que o mundo voltasse a ser como era em 1789, mas para o Brasil, ele fez o oposto. Ao oficializar o fim do pacto colonial para atender a uma necessidade diplomática momentânea, o Congresso de Viena deu ao Brasil as ferramentas jurídicas e o orgulho nacional necessários para que, apenas sete anos depois, o país proclamasse sua independência total.

A Revolução Liberal do Porto: O Ultimato que Deu à Luz o Brasil Independente

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A Revolução Liberal do Porto: O Ultimato que Deu à Luz o Brasil Independente

Como um movimento constitucionalista em Portugal tentou "recolonizar" o Brasil e acabou provocando o Grito do Ipiranga.

Se o Congresso de Viena deu ao Brasil o título de Reino, a Revolução Liberal do Porto (1820) deu ao Brasil a pressa de ser uma Nação. Foi um conflito de interesses onde o "liberalismo" de um lado do oceano soava como "opressão" do outro.

1. O Barril de Pólvora em Portugal

Enquanto a Corte vivia os luxos do Rio de Janeiro, Portugal estava em frangalhos. O país era governado por regentes ingleses, a economia estava quebrada e o povo sentia-se abandonado por seu Rei.

Em agosto de 1820, militares e a burguesia na cidade do Porto cansaram de esperar. Eles exigiam:

  • O retorno imediato de Dom João VI para Lisboa.

  • A criação de uma Constituição que limitasse os poderes do Rei (fim do Absolutismo).

  • A "regeneração" de Portugal, o que, nas entrelinhas, significava fazer o Brasil voltar a ser colônia para salvar a economia portuguesa.

2. O Dilema de Dom João VI: Partir ou Perder a Coroa?

Dom João VI estava em uma "sinuca de bico". Se ficasse no Brasil, perdia o trono português para os revolucionários. Se voltasse, corria o risco de o Brasil se rebelar.

Em abril de 1821, ele cedeu e partiu. Mas, antes de embarcar, proferiu a famosa frase ao seu filho, o Príncipe Pedro:

"Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros."

Ele sabia que o fim do Reino Unido era apenas questão de tempo.

3. As Cortes Portuguesas: O Tiro que Saiu pela Culatra

Com o Rei de volta a Portugal, as Cortes (o parlamento português) assumiram o controle e começaram a tomar medidas que enfureceram os brasileiros:

  • Exigiram a extinção dos tribunais e órgãos criados por Dom João no Rio.

  • Enviaram tropas para "garantir a ordem".

  • Ordenaram que o Príncipe Pedro retornasse imediatamente à Europa para "completar seus estudos".

Para a elite brasileira (fazendeiros, comerciantes e intelectuais), estava claro: Portugal queria o monopólio comercial de volta. O liberalismo português era apenas para os portugueses; para o Brasil, o plano era o retrocesso.

4. O Movimento de Resistência e o "Dia do Fico"

O Príncipe Pedro, cercado por conselheiros como José Bonifácio e influenciado por sua esposa, a Princesa Leopoldina, percebeu que sua permanência era a única garantia de que o Brasil não seria retalhado ou recolonizado.

Em 9 de janeiro de 1822, desafiando as ordens de Lisboa, ele declarou: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto! Digam ao povo que fico". Esse foi o rompimento político prático; o Brasil já não obedecia mais cegamente às ordens de além-mar.

5. O Grito do Ipiranga: O Desfecho Inevitável

A tensão escalou até setembro de 1822. Enquanto Pedro viajava para São Paulo para garantir apoio, novas cartas das Cortes chegaram ao Rio, anulando todos os seus atos e ameaçando-o.

Leopoldina e Bonifácio enviaram essas cartas ao Príncipe com um ultimato: ou ele aceitava a submissão, ou proclamava a separação. Às margens do riacho Ipiranga, em 7 de setembro, Pedro escolheu o caminho da ruptura definitiva.

Consequências: Uma Independência Conservadora

A Revolução do Porto forçou o nascimento do Império do Brasil. Diferente das repúblicas hispânicas que lutaram guerras civis sangrentas, o Brasil optou por uma monarquia constitucional, mantendo um Bragança no poder.

O "liberalismo" português, ao tentar apertar demais o nó colonial, acabou arrebentando a corda que unia os dois mundos.

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História Viva com a Prof.ª Socorro Macêdo

Professora Licenciada em História com especialização em Gestão Escolar. Trabalhei por 26 anos na rede municipal. Gosto de aprender sobre Educação e tecnologia.

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